quarta-feira, 12 de junho de 2013

Destino



Mia Couto

À ternura pouca 
me vou acostumando 
enquanto me adio 
servente de danos e enganos 

vou perdendo morada 
na súbita lentidão 
de um destino 
que me vai sendo escasso 

conheço a minha morte 
seu lugar esquivo 
seu acontecer disperso 

agora 
que mais 
me poderei vencer? 


quarta-feira, 5 de junho de 2013

No tempo em que se falava de amor




SANDERSON NEGREIROS
Chegas assim, tênue como a chuva dançarina, irradiando a bondade natural e eleita, consumindo nos caminhos a persuasão das auroras, instigando o sono das ervas silvestres, meditando um longo crepúsculo à beira de um gesto de repouso. Chegas assim, destruindo a atribulada definição de existir, e em ti posso calcular a distancia entre o nascimento e a morte. És um arco que une as diversas linhas imaginarias do sonho, as latitudes poderosas do silêncio que demarcam os tons azuis do planeta. Ah como seria belo contemplar a Terra vista da Lua, e saber que tu formas um pensamento de energia pura, em meio à vastidão da beleza cósmica, captável dessa perspectiva; e, assim, nunca te olvidar, mesmo em meio a mais de seis bilhões de pessoas que habitam o nosso astro iluminado, humildemente aceso pelas luzes belíssimas da Via Láctea, a materna galáxia.
A beleza dói em teus olhos; fere a longa clorofila das campinas. Apascentas o coração do companheiro, e amo-te desde que ti vi, na praia, com uma onda buscando tocar teu braço. Força é não esquecer que caminhavas, sozinha, quando o sol construiu um arco-íris para que ficasses alegre; e irradiou um eclipse para que o perfil de teu rosto não se perdesse no desdobrar dos horizontes tardios.
A meiguice com que pronuncias a palavra da doce paixão tem o cantar unânime de mil pássaros na floresta negra, na hora em que eles cantam com a mesma claridade  com que o vento começou a existir no inicio da criação. Escutavas, antes mesmo de qualquer música, o silêncio. Aí, criaste o som, e com ele a parábola entre dois corações, que se buscam a interromper a distância de  continentes longínquos. O som anônimo, oculto, inaudível, age com a mesma intensidade da estrela que nasce. Dei a ti, na oferta de um pequeno reino,  estreito como o esquecimento, as calçadas do mar, a curva dos horizontes e a pureza dos regatos, ao amanhecerem no presságio de mais um dia a vagar, molhado por orvalho ensurdecedor. Haverás de receber  minha lembrança que chega a ti, sem pedir licença ao acaso, e generosamente procuras aumentar as palpitações do coração do mundo. Cortarás o céu da noite, que me permite o sonho e a realidade, e foges na cabeleira de um cometa, a descobrir o caminho que nos transporta e nos dá a única possibilidade de fazer a ponte entre o visível e o invisível – mesmo que para isso sejam  necessários anos-luz de paciência e solidão. Por tudo isso, eu queria escrever , hoje à noite,  a carta de amor mais bela. A que feita e escrita, não fosse: cantasse apenas uma canção inesquecível.  É a carta a que me proponho desde a infância; poema que foi a força de minha adolescência e o sinal de minha juventude. Hoje, à noite, queria escrever a carta que nada dissesse, que nada revelasse; fosse intima como o segredo do vento – e marcada como os punhais invejáveis que, no crepúsculo, cortam o horizonte.  
Queria encontrar um poema, que da minha lembrança revelasse a aparição da aurora; dissesse a quem amo, que só em saber que ela existe, continua o seu viver a dar  razão à vida; que um simples gesto seu comove as pedras da aflição, rasga as vestes da lucidez, aumenta a perspectiva do sonho, engrandece a longitude da minha alma. Queria que esta carta de amor fosse calma como a solidão da água noturna, aprisionada em tanques abandonados, e mais: se constituísse em milagre, transbordamento, caricia de eterna vontade.
Nessa carta, a mão que a escreve traz a mesma força de outra mão de ternura de que se não esquece nunca – o rictus de seu lábio me fala as palavras que eu desejaria ouvi-las num ermo de luz e sombra. Queria que meu amor aqui se reconhecesse e dissesse: - É a mim que escreves. É por mim que te agitas, e teu pensamento avulta o solstício,  as estações inquietas do inverno e do verão, ao limitar o roteiro de rotação da Terra. Que essa carta fosse a mais bela e a mais real; que se perdesse, fosse reencontrada  pelos amantes, catadores do futuro. E os séculos nos dariam razão. Queria, nesta noite, um pouco do som dos corredores da infância a restituir a rara felicidade que possa restar da voz materna, a nos chamar de bem longe, muito longe.E descesse pelas claraboias um luar restituído pelo hino alvejado no canto dos noturnos pássaros dos quintais.
Assim, algum dia poderia  me sentir o homem mais feliz do mundo – porque amo as vastidões insuperáveis das paisagens – e tenho todos os motivos para reencontrar a canção perdida, e oferecê-la, com o silêncio de quem fiscaliza o mistério e apazigua o tumulto do silencio . Mesmo que os outros não possam perceber, esta será a carta mais inesquecível, somente porque tu existes e em ti posso descansar a fronte. Detidamente, com a paciência de um sábio ignorante que encontrou a simplicidade do mistério.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

De Santo Agostinho para ANGELA




A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me deem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Conversa com Bené




 Revi agora o “Mágico de Oz”. A grande arte cinematográfica  retém o tempo. A beleza do cinema me comove, é um espelho dos nossos desejos, dos nossos afetos e por isso sempre nos faz chorar.
Como a  beleza que reside na forma de um longo poema, há sempre um verso escolhido que fica entranhado na alma da gente. Assim mesmo são alguns filmes, cenas às vezes curtas que continuam protagonistas dos nossos mais íntimos segredos:
- A inesquecível cena da morte de "Cidadão Kane", quando o gênio Orson Welles mostra a luz da vida escapando pela janela e  escurecendo lentamente o quarto do morto, como   pálpebras adormecidas.
- Ah! Chaplin em "O Grande Ditador" e a divertida discussão sobre um tratado de paz. Mas é o barbeiro judeu quem nos oferece  o mais completo show, fazendo a barba do careca numa incrível coreografia, enquanto ouve no rádio a  Dança Húngara número 5 de Brahms.  
- E, agora, o filme "Amor", onde Georges (Jean-Louis Trintignant) é um pássaro acuado e, em busca da liberdade, abre as janelas e portas,  se prepara para o voo final junto com  seu grande amor, Anne (Emmanuelle Riva), e nos mostra a liberdade antes mesmo de nos apresentar a morte, numa bela  oração sobre o que verdadeiramente vale viver e sobre o que verdadeiramente vale morrer.
Enfim, Fellini: “O cinema é um modo divino de contar a vida”

domingo, 24 de março de 2013

resposta



Prometa que sempre que se sentir triste ou insegura ou perder completamente a fé, tente olhar para si mesma, com meus olhos.” –Eu te amo

E agora José? Só Adélia Prado poderá responder:

 “Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?  “